top of page

Entre gastronomia, artesanato e cultura geek, feirinhas impulsionam o empreendedorismo de jovens e mulheres nas praças de Boa Vista

  • 5 de jun.
  • 6 min de leitura

Por Eloá Brito, Mariana Assunção e Thaislla Ribeiro


Fotos: Instagram da Feirinha Tô na Praça | Design: Eloá Brito.
Fotos: Instagram da Feirinha Tô na Praça | Design: Eloá Brito.

O movimento começa ainda antes do pôr do sol. Enquanto os expositores descarregam caixas, organizam produtos e montam suas mesas, a Praça do Chefão, no bairro Paraviana, em Boa Vista, capital de Roraima, começa a ganhar uma nova dinâmica. O espaço, conhecido por reunir famílias e visitantes aos fins de semana, transformou também em um ponto de encontro para pequenos empreendedores que encontraram nas feiras uma oportunidade de divulgar seus negócios, ampliar a renda e construir novos projetos de vida.


Entre aromas de comida artesanal, produtos de beleza, peças decorativas, livros, acessórios sustentáveis e itens da cultura geek, circulam histórias marcadas por criatividade, persistência e recomeços. O que para muitos visitantes representa apenas uma opção de lazer ao ar livre, para dezenas de expositores significa uma importante vitrine para seus empreendimentos.


Nos últimos anos, as feirinhas realizadas em praças da capital roraimense têm se consolidado como espaços de fortalecimento da economia criativa e do empreendedorismo local. Mais do que locais de venda, elas se tornaram ambientes de troca de experiências, construção de redes de apoio e geração de oportunidades para quem decidiu transformar habilidades e paixões em fonte de renda.


Mulheres à frente dos negócios


Uma dessas histórias é a de Isabella Franco. Apaixonada pelo universo da beleza e dos cuidados com a pele, ela transformou seu interesse por produtos de skincare em um negócio próprio. Hoje, comercializa produtos importados, principalmente japoneses e asiáticos, conhecidos pela qualidade e inovação no segmento de autocuidado.


Na bancada, máscaras faciais, hidratantes, protetores solares e outros itens atraem consumidores interessados em conhecer produtos que nem sempre estão disponíveis nas lojas tradicionais da cidade. Mais do que apresentar mercadorias, Isabella utiliza o espaço para orientar clientes, explicar os benefícios dos produtos e criar vínculos que dificilmente seriam construídos apenas pelas redes sociais.


Segundo a empreendedora, a participação na Feirinha Tô na Praça permitiu que sua marca alcançasse novos públicos e fortalecesse sua presença no mercado local.


“Participar da Feirinha Tô na Praça foi muito especial para mim, porque além de apresentar minha marca, eu também pude conhecer outros empreendedores, trocar experiências e aprender bastante com eles”, afirma.


Ela explica que o contato direto com os consumidores gera confiança e aproxima o cliente da proposta do negócio.


“Como trabalho com skincare importado, principalmente produtos japoneses, muitas pessoas chegam curiosas para conhecer os produtos. A feira me permite explicar os benefícios, conversar com os clientes e criar uma relação mais próxima. Isso gera confiança e fortalece a marca.”


A experiência de Isabella reflete uma realidade cada vez mais presente em Roraima: o crescimento do empreendedorismo feminino como alternativa para geração de renda, autonomia financeira e realização profissional.


Empreender também é recomeçar

A poucos metros dali, outras histórias ajudam a ilustrar esse cenário. É o caso de Sabrina Mota e Nai Terra, fundadoras da Florescer, marca voltada para maquiagem, autocuidado e autoestima feminina.


O empreendimento surgiu em um período de mudanças e reconstrução pessoal. Com poucos recursos financeiros, mas muita disposição para empreender, as sócias iniciaram o negócio apostando em produtos de beleza e em um atendimento próximo das clientes. Com o passar do tempo, a participação em feiras tornou-se uma das principais estratégias para ampliar a visibilidade da marca.


Itens de beleza e autocuidado comercializados pela empreendedoras Sabrina Mota e Nai Terra na Feirinha Tô na Praça | Fotos: Nai Terra/Arquivo Pessoal.
Itens de beleza e autocuidado comercializados pela empreendedoras Sabrina Mota e Nai Terra na Feirinha Tô na Praça | Fotos: Nai Terra/Arquivo Pessoal.

Para Sabrina, o empreendedorismo feminino possui um papel que vai além da geração de renda. Ela acredita que histórias de mulheres que conquistam independência através dos próprios negócios podem inspirar outras pessoas a acreditarem em suas capacidades.


“A Florescer nasceu justamente de um momento de recomeço na minha vida. Hoje eu procuro transmitir essa mensagem para cada cliente que passa pela nossa bancada”, conta.


Mais do que comercializar maquiagem, a proposta da marca está relacionada ao fortalecimento da autoestima feminina.


“Quando uma cliente sai mais feliz, mais confiante e com a autoestima elevada, eu sinto que a Florescer está cumprindo o seu propósito.”


A convivência proporcionada pelas feiras também se tornou um diferencial para o crescimento do negócio. Segundo as empreendedoras, esses eventos permitem criar conexões que ultrapassam a relação comercial.


“Participar da feirinha é uma experiência muito especial porque nos aproxima das pessoas. É ali que escutamos histórias, conhecemos clientes e construímos relacionamentos que vão muito além da venda”, afirma Sabrina.


Para Nai Terra, a trajetória da Florescer demonstra como a persistência pode transformar desafios em oportunidades.


A empreendedora relembra que o início foi marcado por dificuldades comuns a muitos pequenos negócios, como limitações financeiras e a necessidade de conquistar espaço em um mercado competitivo. Ainda assim, a experiência trouxe aprendizados que contribuíram para consolidar a marca.


“Construir a Florescer foi um grande desafio, mas também uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Cada produto, cada feira e cada conquista carregam uma história de superação”, destaca.


O avanço do empreendedorismo feminino


As histórias de Isabella, Sabrina e Nai ajudam a ilustrar uma tendência que vem ganhando força em Roraima.


Segundo dados do Sebrae Roraima e do DataSebrae, mais de 22 mil empresas no estado são comandadas por mulheres. Atualmente, elas representam cerca de 44,3% dos empreendimentos formalizados em Roraima.


Os números mostram ainda um crescimento de 35,5% na quantidade de empresas lideradas por mulheres em apenas um ano, evidenciando a ampliação da participação feminina no ambiente de negócios.


Itens de beleza, moda e autocuidado comercializados pela empreendedora Isabella Franco na Feirinha Tô na Praça | Fotos: Isabella Franco/Arquivo Pessoal.
Itens de beleza, moda e autocuidado comercializados pela empreendedora Isabella Franco na Feirinha Tô na Praça | Fotos: Isabella Franco/Arquivo Pessoal.

Por trás desses dados estão mulheres que transformaram conhecimentos, talentos e hobbies em atividades econômicas capazes de complementar a renda familiar ou se tornar a principal fonte de sustento. Muitas iniciaram os negócios dentro de casa, conciliando a rotina familiar com a produção de mercadorias. Outras encontraram no empreendedorismo uma alternativa diante das dificuldades de inserção no mercado formal de trabalho.


Em comum, elas compartilham o desejo de construir autonomia financeira e ampliar suas possibilidades profissionais.


Economia criativa e oportunidades


Nas feirinhas de Boa Vista, é possível encontrar exemplos dessa transformação em praticamente todas as barracas.


Há quem produza doces artesanais em cozinhas domésticas, artesãos que transformam matéria-prima simples em peças exclusivas, artistas independentes que comercializam ilustrações e jovens que encontraram na cultura geek uma oportunidade para empreender.


Esse conjunto de atividades integra a chamada economia criativa, setor que tem como principal matéria-prima o conhecimento, a criatividade e a inovação.


Ao contrário dos grandes empreendimentos, muitos desses negócios surgem com investimentos modestos. Em vez de grandes estruturas físicas, apostam na originalidade dos produtos, no atendimento personalizado e na proximidade com os consumidores.


Nesse contexto, as feiras funcionam como verdadeiros laboratórios de negócios. É nesses espaços que empreendedores testam produtos, observam o comportamento dos clientes, recebem sugestões e identificam oportunidades de crescimento.


Muito além das vendas


Embora a comercialização de produtos seja uma das principais motivações para participar das feiras, o impacto desses eventos vai além do faturamento obtido em um único dia.


Trocas de experiências, indicações de fornecedores, parcerias comerciais e ações coletivas de divulgação fazem parte da rotina dos expositores. Para muitos participantes, a feira foi o primeiro local onde puderam apresentar seus produtos ao público.


A própria Isabella afirma que grande parte dos clientes que conhece presencialmente durante os eventos continua acompanhando e comprando da marca posteriormente pelas redes sociais.


“O mais importante não é apenas vender naquele dia. Muitas pessoas conhecem a marca na feira e depois continuam comprando pelas redes sociais. É uma forma de expandir o negócio”, explica.



Desenvolvimento local


Além de fortalecer pequenos empreendimentos, as feiras também movimentam a economia da cidade.


Para o economista Fábio Martinez, esses eventos desempenham um papel importante no fortalecimento dos negócios locais, especialmente para quem está iniciando a trajetória empreendedora.


Segundo ele, embora muitas vendas realizadas durante as feiras sejam consideradas pequenas individualmente, o impacto coletivo gerado pela participação simultânea de dezenas de empreendedores produz resultados relevantes para a economia.


“Mesmo sendo pequenas vendas realizadas individualmente, quando observamos o conjunto dos empreendedores participantes, o impacto econômico se torna bastante relevante”, avalia.


O economista explica que esse movimento cria um ciclo positivo de geração de renda, consumo e emprego.


Quando os empreendedores aumentam suas vendas, passam a demandar mais produtos, serviços e até mão de obra temporária para atender à demanda. Os recursos gerados circulam em outros setores da economia local, beneficiando diferentes segmentos comerciais.


“Essa movimentação cria um círculo virtuoso. O dinheiro continua circulando dentro da economia local, fortalecendo outros negócios e contribuindo para a geração de empregos”, afirma.


Martinez destaca ainda que um dos principais desafios enfrentados pelos pequenos empreendedores é identificar o momento adequado para expandir suas atividades e alcançar novos mercados.


Para isso, segundo ele, capacitação, planejamento e apoio técnico tornam-se fundamentais. Nesse processo, instituições como o Sebrae exercem papel importante ao oferecer treinamentos, consultorias e orientações para quem deseja profissionalizar e ampliar seus negócios.


A praça onde sonhos ganham espaço


À medida que a noite avança, as luzes das barracas iluminam a Praça do Chefão. Crianças correm pelos corredores, famílias observam os produtos expostos e empreendedores seguem apresentando suas marcas para novos clientes.


Foto: Reprodução/Instagram @feirinhatonapraca.
Foto: Reprodução/Instagram @feirinhatonapraca.

Por trás de cada item vendido existe uma história de coragem, trabalho e persistência.


Histórias como as de Isabella Franco, Sabrina Mota e Nai Terra revelam que as feirinhas vão muito além de simples eventos comerciais. Elas representam espaços de encontro, aprendizado e construção de oportunidades.


Enquanto os visitantes procuram novidades, os empreendedores encontram algo ainda mais valioso: a chance de crescer, conquistar autonomia financeira e demonstrar que grandes sonhos podem começar em uma simples barraca montada em uma praça pública.


 
 
 

Comentários


Logo 2.png
  • Spotify
  • Instagram
  • Twitter

© 2025 

bottom of page