A Violência contra a mulher em Roraima: medo, subnotificação e desafios na rede de proteção
- há 2 dias
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Vítimas relatam dificuldade para denunciar e enfrentar o processo; promotora aponta barreiras no acesso à proteção, especialmente para indígenas, venezuelanas e mulheres do interior
Por: Luiz Quadros, Leticia Cristina, Brunna Lavynya, Izadora Lima, Nicole Mitchelle, Kauã dos Reis
Acadêmicos do 1º semestre de Jornalismo da Universidade Federal de Roraima (UFRR)
A violência contra a mulher é um problema social já enraizado na sociedade roraimense, e os números colocam o estado em uma posição de destaque negativo. Roraima é, ano após ano, um dos estados que mais notifica violência contra a mulher no Brasil, e em diversos levantamentos recentes aparece no topo do rank nacional, mesmo sendo um dos estados menos populosos do país.
Em um levantamento feito pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2025 os casos de feminicídio bateram números recorde no país, uma alta de quase 300% em comparação a 2015, ano da tipificação do crime, saltando de 535 para 1470 casos.
Em Roraima, esse cenário se reflete de forma ainda mais intensa, pois a desproporção entre o tamanho da população e a quantidade de casos registrados acende um alerta: o problema não é só estatístico, é estrutural.
Em entrevista, Kamila (nome fictício, para preservar a vítima), assistente social e sobrevivente de violência doméstica, conta sua experiência dos anos que viveu com o homem que aponta ser seu agressor. Por ser um assunto delicado, Kamila ainda sente as consequências desse trauma. Mesmo assim, decidiu nos contar seu relato, como forma de aliviar a carga emocional do assunto.
“Vivi com a pessoa dos meus 14 [anos] até o início dos meus 30 anos. Ainda no início do namoro, tomei meu primeiro tapa”, contextualizou Kamila.
Num contexto de crescimento da violência contra a mulher, é de suma importância que as instituições e órgãos de proteção sejam eficientes no acolhimento das vítimas. Mas quem garante que essas medidas sejam de fato eficazes e atendam às necessidades desses casos?
Por trás dos números, existem histórias de Mulheres que enfrentaram anos de violência antes de conseguir, ou tentar, romper o ciclo. E, no caminho entre a decisão de denunciar e o fim do processo, encontram uma rede de proteção que, em Roraima, ainda enfrenta lacunas importantes.
O medo é o maior desencorajador das vítimas
Histórias de mulheres sobre violência não são difíceis de ouvir no dia a dia, independente da natureza dessa violência. As vítimas geralmente demoram a associar e falar sobre o assunto, principalmente por medo de represálias dos autores da violência, com quem, na maioria dos casos, possuem algum tipo de dependência emocional, financeira ou familiar.
Durante seu casamento, Kamila, assim como muitas outras mulheres, não tinha conhecimento das agressões que sofria no relacionamento: “Foram 18 anos com ele, no qual eu sofri todos os tipos de violência: sexual, física, mental, patrimonial, financeiro. E, até então, eu nunca tinha percebido isso”, relatou.
Segundo Kamila, a decisão de buscar ajuda veio depois da separação, quando a violência se agravou.
“Foi pós separação, quando que ele tentou me matar”, contou.
Em relacionamentos abusivos, é comum a ideia de posse do homem sobre a mulher, uma lógica que aparece em falas e ameaças que reforçam controle, dependência e medo. “Ele falava que, se eu não fosse dele, eu não ia ser de mais ninguém. Aí ele tentou me matar”, afirmou Kamila.
A Promotora de Justiça de Defesa da Mulher, Lucimara Campaner, conta que os casos mais frequentes no Ministério Público envolvem violência psicológica, moral e física. Segundo ela, muitas mulheres não reconhecem inicialmente que estão sofrendo violência, pois situações como humilhações, xingamentos, acusações infundadas de traição, controle excessivo e isolamento acabam sendo normalizadas dentro do relacionamento.
Muitas vítimas procuram ajuda apenas quando a violência evolui para agressões físicas, embora já tenham sofrido diversas formas de violência anteriormente.

A busca por ajuda foi um ponto importante na vida de Kamila, que decidiu denunciar após a situação atingir sua própria mãe.
“O impulso pra eu ter denunciado ele foi ele ter atentado não só contra a minha vida, mas também contra a da minha mãe. Acredito que se ele tivesse ficado na dele naquela manhã, tivesse deixado eu entrar em casa, acredito eu que não tinha denunciado, pela Kamila que eu era antes”, contou.
A mãe teve um papel fundamental nesse processo.
“Minha mãe me levou e falou: ’agora você vai denunciar ele’. Ela sabia de tudo que acontecia no casamento”, continuou. “E eu dificultava antes. Eu tinha a sensação de que, sem ele, eu ia morrer; sem ele, eu ia morrer de fome com meus filhos, não ia conseguir sobreviver, e ele várias vezes colocava essa ideia na minha mente”.
Júlia (nome fictício, para preservar a vítima), ex-estudante da Universidade Federal de Roraima (UFRR), relata ter sido vítima de abuso sexual e também enfrentou medo no início do projeto. Segundo ela, havia receio de represália, principalmente porque o acusado era um colega de curso.
“Sentia medo de não ter apoio e ter que passar por tudo isso sozinha, ser julgada, de ele tentar fazer algo contra mim. Eu realmente tinha medo naquela época. Também temia que achassem que eu estava mentindo”, relatou.

Existem inconstâncias no atendimento às vítimas
A violência, independentemente do tipo, é devastador para as vítimas. Por isso, é essencial que haja um bom acolhimento, especialmente para mulheres que não têm apoio de pessoas próximas. Entretanto, o atendimento pode variar. Em alguns casos, a mulher é bem acolhida; em outros, sente-se altamente questionada ou invalidada.
Sobre o início do processo, Júlia contou que recebeu acolhimento quando procurou ajuda.
“Foram acolhedores. Eu nunca tinha passado por nada do tipo e me falaram tudo que eu tinha direito e poderia fazer. Me ofereceram abrigo, cuidados e me deram algumas sugestões pra poder me proteger, como pedir uma medida protetiva”, afirmou.
No momento da produção desta reportagem, Júlia ainda aguardava a conclusão do processo, que já se prolongava há 2 anos. Para ela, o apoio ao redor poderia ter ajudado no enfrentamento da situação.
“Muitas pessoas em minha volta simplesmente achavam melhor eu deixar isso quieto, porque ia ser algo cansativo e desnecessário, já que, na cabeça delas, esse caso poderia não dar em nada”, comentou.
Segundo Júlia, a falta de conhecimento sobre os processos também afetou a forma que ela recebeu apoio. “Acho que, se elas tivessem um pouco mais de conhecimento, teriam me apoiado de uma forma melhor. Passar por tudo isso sozinha foi algo muito difícil e me fez querer desistir”, finalizou.
Kamila teve uma experiência diferente. No atendimento inicial, sentiu estranhamento principalmente pela composição da equipe. “Quando cheguei lá, eu me espantei, porque só tinha homem tanto na delegacia quanto na casa da mulher. Mas eles falaram pra eu me acalmar, pois iam me atender da melhor forma possível. E fui mesmo super bem atendida”, comentou.
Contudo, ao dar seguimento ao processo, sentiu-se colocada em posição de dúvida. Kamila relata que a primeira versão da história ouvida foi a do homem apontado por ela como agressor.
“Colheram o depoimento dele primeiro. A delegada ficou constantemente me questionando e me colocando contra a parede, querendo confirmar as coisas que ele disse. Aí eu fiquei me perguntando: Por que era pra eu ta sendo acolhida, e acabou que eu estava sendo super questionada?”, contou.
Para Kamila, a sensação de descrédito perdurou por todas as etapas do processo. Segundo ela, mesmo com a responsabilização do homem apontado como autor da violência, a resposta não foi proporcional ao que sofreu.
O Ministério Público e o combate à impunidade
A Promotora de Justiça de Defesa da Mulher, Lucimara Campaner, explica que o Ministério Público atua em praticamente todas as etapas do processo: desde o acolhimento inicial da vítima, recebimento da denúncia e acompanhamento das investigações, até a produção de provas, pedidos de medida protetiva ou prisão preventiva, apresentação da denúncia criminal, acompanhamento do julgamento e fiscalização do cumprimento da pena.
“O objetivo é combater a impunidade e garantir a responsabilização dos agressores”, afirma a promotora.
Sobre os instrumentos de proteção disponíveis, Lucimara cita a Lei Maria da Penha como a principal ferramenta. Embora existam casos em que a medida protetiva não seja suficiente, ela é considerada eficaz na maioria das situações.
Outros mecanismos utilizados em Roraima incluem a Patrulha Maria da Penha, a Ronda Maria da Penha, o botão do pânico, a tornozeleira eletrônica para agressores e a prisão preventiva.
Um dado, porém, chama atenção. Segundo a promotora, grande parte das vítimas de feminicídio nunca havia solicitado medida protetiva antes de serem assassinadas. Para ela, isso reforça o tamanho do desafio que ainda existe entre a violência sofrida e a efetiva busca por proteção.
Indígenas, venezuelanas e mulheres do interior: barreiras a mais
Lucimara aponta que mulheres indígenas, imigrantes venezuelanas, mulheres negras, rurais e periféricas enfrentam dificuldades adicionais para acessar a rede de proteção em Roraima.
Barreiras linguísticas, dificuldade de deslocamento, falta de acesso à informação, vulnerabilidade social e econômica e a distância geográfica dos serviços públicos tornam o acesso à Justiça ainda mais desigual.
Para tentar reduzir essa distância, o Ministério Público tem recorrido a videoconferências e outras estratégias que aproximam essas mulheres dos serviços, mesmo quando elas estão fisicamente longe das unidades de atendimento.
Por que o ciclo se repete?
Segundo a promotora, não existe um perfil único de agressor, mas alguns fatores aparecem com frequência nos casos que chegam ao MP: machismo estrutural, sentimento de posse sobre a mulher, ciúme excessivo, necessidade de controle, histórico familiar de violência e consumo abusivo de álcool e drogas.
Para Lucimara, o fator principal da questão está nas relações de poder e dominação. Ela também explica o chamado ciclo da violência, que ajuda a entender por que tantas mulheres demoram a romper a relação. Primeiro surgem conflitos e tensões. Depois, ocorre um episódio de agressão, seguido por uma fase de reconciliação, popularmente chamada de “lua de mel”. Com o tempo, o ciclo se repete.
Muitas mulheres permanecem na relação acreditando que o autor da violência vai mudar, o que alimenta a continuidade das agressões.
O que ainda falta
Entre as medidas apontadas pela promotora como fundamentais para enfrentar o problema em Roraima estão a ampliação da qualificação profissional feminina, o incentivo à autonomia financeira das mulheres, o fortalecimento dos programas sociais, a expansão dos serviços especializados no interior do estado e a maior integração entre os órgãos de proteção.
Para Lucimara, a educação também é uma ferramenta essencial de prevenção. Isso passa por debater igualdade entre homens e mulheres, trabalhar direitos humanos nas escolas, combater tabus relacionados à educação sexual e ensinar crianças e adolescentes a reconhecer situações de abuso.
Os principais desafios para enfrentar a violência de gênero no estado, segundo ela, seguem sendo a dependência financeira das vítimas, o medo de denunciar, a falta de informação, a naturalização da violência, a dificuldade de acesso à rede de proteção, a repetição de padrões familiares violentos e a fragilidade dos serviços públicos em áreas mais distantes.
Por fim, a promotora deixa uma mensagem às mulheres em situação de violência: elas não estão sozinhas e devem confiar na rede de proteção.
“Existe vida após a violência”, reforça.
A Lei Maria da Penha, segundo Lucimara, é uma ferramenta eficaz, e a denúncia é fundamental para interromper o ciclo. Mas o enfrentamento da violência exige atuação conjunta do Ministério Público, Poder Judiciário, Defensoria Pública, polícia, escolas, universidades e da sociedade civil como um todo.
Histórias como a de Kamila e Júlia são exemplos de que a violência contra a mulher não se resume aos números. Ela atravessa relações familiares, instituições, processos judiciais e o silêncio. Não apenas leis são necessárias para enfrentar esse problema, mas também acolhimento, informação, acesso à Justiça e uma rede capaz de fazer com que cada mulher saiba que não está sozinha.




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