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Trabalho infantil afasta meninas da escola e leva mulheres a buscar segunda chance na EJA em Roraima

  • 6 de jul.
  • 4 min de leitura

Estado registrou aumento de 120% nos casos de trabalho infantil em um ano, enquanto

meninos predominam na agricultura e no comércio informal, meninas são maioria no

trabalho doméstico invisível


Por: Alice Barreto, Damaris Pinheiro, Deborah Simões, Maria Clara Guimarães, Nágila Bitencourt e Sabrina Nazareno

Acadêmicas do 1º semestre de Jornalismo da Universidade Federal de Roraima (UFRR)


Alunas da Educação de Jovens e Adultos retornam aos estudos após anos afastadas da escola. 		Foto: Damaris Pinheiro.
Alunas da Educação de Jovens e Adultos retornam aos estudos após anos afastadas da escola. Foto: Damaris Pinheiro.

“Meu pai dizia que estudar não tinha ficado para a gente, não”. Aos 60 anos, Maria faz parte da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em Boa Vista. A oportunidade chega décadas depois de uma infância dedicada aos afazeres domésticos e distante da escola. A história dela reflete a realidade de milhares de meninas brasileiras que tiveram a infância marcada pelo trabalho infantil e, agora, tentam recuperar o tempo perdido.


Roraima registra aumento dos casos

Em 2024, o Brasil contabilizou cerca de 1,6 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Em Roraima, o cenário é ainda mais preocupante. O estado registrou crescimento de 120% em apenas um ano foram 2.166 casos em 2023 e 4.766 em 2024, Boa Vista concentra quase metade das ocorrências, com 43,5% dos registros.


De acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT), fiscalizações recentes resgataram 47 crianças e adolescentes em situação de exploração na capital. Muitas estavam em feiras, oficinas mecânicas e padarias, expostas a riscos de acidentes e ao contato com produtos químicos. Outras trabalhavam dentro de casas de família, em atividades domésticas invisíveis à fiscalização.


O trabalho infantil doméstico é considerado uma das piores formas de exploração. Dados da plataforma Livre de Trabalho Infantil mostram que, em 2014, cerca de 174 mil crianças e adolescentes estavam ocupados em serviços domésticos. Deste total, 94,2% eram meninas e 73,4% eram negras.


Além da evasão escolar, os impactos incluem lesões por esforço repetitivo, alergias, risco de acidentes e até assédio sexual. Muitas enfrentavam jornadas triplas com o trabalho fora, tarefas domésticas em casa e estudo.


A diferença entre meninos e meninas é clara, enquanto eles predominam em atividades agrícolas e no comércio informal, elas são maioria no trabalho doméstico invisível e menos fiscalizado. Essa divisão reflete papéis sociais impostos desde cedo, meninos vistos como provedores, meninas como cuidadoras.


O manual “Só Por Ser Menina” alerta que essa desigualdade de gênero perpetua ciclos de exclusão e limita o futuro das mulheres, que desde cedo são empurradas para funções de cuidado e submissão.


Infográfico mostra a desigualdade na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. 							Fonte: Adaptado do Manual de Enfrentamento ao Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente Trabalhador, Ministério Público do Trabalho (MPT).
Infográfico mostra a desigualdade na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Fonte: Adaptado do Manual de Enfrentamento ao Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente Trabalhador, Ministério Público do Trabalho (MPT).

Retorno à escola

Muitas dessas meninas, já adultas, buscam na Educação de Jovens e Adultos a chance de recuperar o tempo perdido. Joana, de 40 anos, conta que trabalhou na roça desde pequena e só agora, na EJA, sente que pode sonhar com um futuro diferente.


Para especialistas, o combate ao trabalho infantil exige ações integradas. A pedagoga Ana Paula Dourado afirma que a EJA é mais do que alfabetização.


“É um ambiente de reconstrução de identidade. As mulheres que voltam a estudar não buscam apenas o diploma, mas o reconhecimento de que têm voz e direito à cidadania”, afirma.


Segundo ela, também é preciso garantir políticas públicas para as famílias. “Sem isso, o ciclo de exclusão se repete: as mães que trabalharam na infância veem suas filhas passarem pelo mesmo”, reforça.


Dados do IBGE mostram que 56% das matrículas na EJA são de mulheres, muitas delas chefes de família. Para essas alunas, voltar à escola significa não apenas aprender a ler e escrever, mas também reconstruir a autoestima e romper ciclos de exclusão.


O desafio é grande, mas histórias como as de Maria e Joana mostram que é possível recomeçar. “Agora eu sei que posso. O estudo é minha liberdade”, resume Maria, com um sorriso tímido e o olhar de quem finalmente se reconhece como protagonista da própria história.


Como denunciar

A denúncia de situações de trabalho infantil é uma das principais formas de proteção de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Qualquer pessoa que presencie ou tenha conhecimento desse tipo de ocorrência pode e deve comunicar as autoridades competentes. O sigilo do denunciante é garantido.

Os casos podem ser reportados ao Conselho Tutelar do município, ao Ministério Público do Trabalho (MPT) ou pelo canal nacional Disque 100, dos Direitos Humanos, que recebe denúncias de forma gratuita e anônima em todo o país.


A participação da sociedade é fundamental para interromper ciclos de exploração e garantir que crianças e adolescentes tenham acesso à educação, proteção e desenvolvimento adequado. Para mulheres como Maria e Joana, o retorno à escola mostra que ainda é possível reconstruir trajetórias. Para as meninas que hoje enfrentam o trabalho infantil, a denúncia e a proteção podem impedir que o direito de estudar chegue tarde demais.


Nota da reportagem: os nomes das personagens são fictícios, usados para preservar a identidade da entrevistada.



 
 
 

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