“Não te julgo, te ajudo”: o acolhimento emocional do projeto HELP em Boa Vista
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Entre cartas e escuta, Projeto HELP amplia ações de apoio emocional em Boa Vista.
Por Mariane Fontenele, Thaislla Ribeiro e Vitória Eloá
A carta chegou enquanto a auxiliar administrativa Luane Seerinawa caminhava pelo Centro de Boa Vista a caminho de um curso. Em meio ao movimento da cidade, um pequeno papel entregue por voluntários chamou sua atenção. A mensagem falava sobre a dor emocional e a importância de continuar.
Naquele período, segundo ela, os dias eram difíceis.
“Eu estava passando por muita coisa emocionalmente. Quando recebi aquela carta, parecia que alguém tinha entendido exatamente o que eu estava sentindo”, relembra.
O contato marcou o início da relação de Luane com o Projeto HELP, iniciativa social de prevenção e apoio emocional que atua no acolhimento de pessoas em sofrimento psicológico. Depois daquele encontro, ela participou de uma reunião promovida pelo grupo e decidiu permanecer. Hoje, Luane atua como voluntária do projeto em Boa Vista.

“Foi ali que eu fui acolhida. Eu consegui falar sobre o que estava vivendo sem medo de julgamento. Hoje eu sou voluntária porque sei o quanto ser ouvido pode fazer diferença”, afirma.
“Não te julgo, te ajudo”
Criado em 2018, o Projeto HELP surgiu diante do crescimento dos casos de ansiedade, depressão, automutilação e suicídio, principalmente entre jovens. Com o lema “Não te julgo, te ajudo”, o projeto atua de forma voluntária em todos os estados do Brasil, promovendo ações de valorização da vida e conscientização sobre saúde mental.
Ao longo dos anos, o grupo passou a realizar palestras, rodas de conversa, campanhas de prevenção e espaços de acolhimento conhecidos como “Cantinho do Desabafo”, onde as pessoas podem conversar de forma reservada com voluntários preparados para escutar sem julgamentos.
Além das atividades presenciais, o HELP também utiliza redes sociais e canais de atendimento para oferecer apoio emocional e orientação. Segundo informações do próprio projeto, milhares de voluntários participam das ações em diferentes regiões do Brasil. Muitos deles já enfrentaram problemas emocionais antes de passarem a acolher outras pessoas.
Em Roraima, o projeto desenvolve ações em escolas públicas e privadas, instituições, praças e espaços públicos de Boa Vista. Entre as iniciativas realizadas estão palestras sobre saúde mental, distribuição de cartas com mensagens de apoio emocional e atividades de conscientização em locais de grande circulação.
Uma das ações promovidas pelo grupo aconteceu em janeiro deste ano, na Ponte dos Macuxis, onde voluntários amarraram cartas com mensagens de incentivo e acolhimento emocional. O projeto também já realizou atividades em shoppings, corridas de conscientização e eventos como o Mega HELP, voltado à prevenção e valorização da vida.

Segundo Rafaela Condak, uma das coordenadoras do Projeto HELP em Roraima, o principal objetivo das ações é criar ambientes seguros para pessoas que enfrentam sofrimento emocional em silêncio.
“Muitas pessoas não conseguem falar sobre o que sentem porque têm medo de serem julgadas. O HELP surge justamente para mostrar que existe alguém disposto a ouvir”, explica.
De acordo com Rafaela, o projeto busca aproximar o debate sobre saúde mental do cotidiano das pessoas, principalmente entre jovens.
“Nós vamos às escolas, realizamos ações nas ruas, entregamos cartas e promovemos palestras justamente para mostrar que pedir ajuda não é sinal de fraqueza”, afirma.

Um problema cotidiano
A atuação do grupo acontece em um cenário que preocupa especialistas e profissionais da saúde em Roraima. Dados divulgados pela rede pública apontam aumento na procura por atendimentos ligados à saúde mental nos últimos anos.
Segundo reportagem da Folha de Boa Vista, somente na rede municipal de Boa Vista, mais de 24 mil atendimentos relacionados à saúde mental foram registrados ao longo do último ano. Entre os diagnósticos mais frequentes estão ansiedade generalizada, episódios depressivos graves, TDAH e transtornos ligados ao sofrimento emocional. A rede estadual também contabilizou milhares de atendimentos na Policlínica Coronel Mota e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Especialistas apontam que fatores como pressão social, excesso de exposição digital, isolamento emocional e dificuldades familiares contribuem diretamente para o agravamento desses quadros, principalmente entre adolescentes e jovens adultos.
Em meio ao crescimento desses casos, iniciativas de acolhimento emocional têm buscado ocupar espaços além dos consultórios e serviços especializados. Em uma realidade marcada pelo aumento da ansiedade, da depressão e do isolamento emocional, projetos comunitários de escuta vêm se tornando alternativas importantes para pessoas que ainda não conseguem procurar atendimento psicológico ou psiquiátrico.
Para a psicóloga Gisellen Eduarda, o impacto dessas iniciativas está diretamente relacionado à criação de espaços seguros de fala e pertencimento, principalmente para quem enfrenta sofrimento emocional em silêncio.
Segundo ela, muitas pessoas demoram para buscar ajuda profissional por fatores sociais, emocionais e até financeiros. Vergonha, medo de julgamento, dificuldade de acesso ao atendimento psicológico e falta de orientação sobre saúde mental ainda fazem parte da realidade de milhares de brasileiros.
“Projetos como o HELP são importantes porque muita gente que sofre psicologicamente não consegue buscar ajuda profissional logo de cara. Às vezes é por falta de dinheiro, às vezes por vergonha, medo de julgamento, ou simplesmente por não saber onde procurar”, explica.
A psicóloga destaca que ações de acolhimento ajudam a romper um dos principais problemas relacionados ao sofrimento emocional: o isolamento. Em muitos casos, pessoas com ansiedade ou depressão acabam se afastando socialmente e guardando sentimentos por medo de não serem compreendidas.
“Ansiedade e depressão pioram muito quando a pessoa se fecha e acha que ninguém entende. Ser ouvido sem julgamento já quebra essa sensação de solidão”, afirma.
Além da escuta, Gisellen ressalta que ambientes de apoio emocional funcionam como espaços preventivos, permitindo que sentimentos acumulados sejam externalizados antes de se transformarem em crises mais graves.
De acordo com a especialista, o acolhimento emocional não está apenas ligado à conversa, mas também à validação do sofrimento vivido por quem procura ajuda. Em muitos casos, a possibilidade de falar sem medo representa o primeiro passo para que a pessoa consiga reconhecer a necessidade de cuidado psicológico.
“Falar sobre o que está doendo, com alguém que valida o que você sente, alivia a pressão e evita que um dia ruim vire uma crise”, pontua.
Outro aspecto destacado pela psicóloga é o fortalecimento das redes de apoio. Para ela, ações comunitárias ajudam as pessoas a perceberem que não estão sozinhas diante do sofrimento emocional, especialmente em uma sociedade marcada pela pressão social, excesso de exposição digital e dificuldades de relacionamento.
“Quando a pessoa percebe que tem gente por perto, fica mais fácil enfrentar os desafios do dia a dia. Estudos mostram que o suporte social é um dos maiores fatores de proteção contra o agravamento de transtornos mentais”, destaca.
Apesar da importância de projetos como o HELP, Gisellen reforça que iniciativas de acolhimento não substituem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico especializado, principalmente em casos mais graves.
Ainda assim, ela avalia que esses espaços exercem um papel importante ao aproximar as pessoas da ideia de buscar ajuda profissional e ao contribuir para a redução do preconceito em torno da saúde mental.
“O HELP funciona como um primeiro acolhimento. Ele aproxima a pessoa da ideia de buscar ajuda e mostra que ela não está sozinha. Mas é importante lembrar que o acolhimento comunitário complementa, e não substitui, o acompanhamento profissional quando o caso necessita”, conclui.
Como solicitar ações do HELP
Além das atividades realizadas nas ruas e espaços públicos, o Projeto HELP também promove palestras, rodas de conversa e ações de conscientização em escolas, empresas e instituições públicas ou privadas.
As atividades abordam temas relacionados à saúde mental, ansiedade, depressão, bullying, automutilação e valorização da vida, buscando aproximar o debate emocional do cotidiano de jovens e adultos.
O projeto também mantém atendimento e apoio emocional 24 horas por dia através de seus canais de contato e redes sociais.

Se você ou alguém próximo precisa de ajuda emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece atendimento gratuito e sigiloso 24 horas por dia.
📞Ligue 188




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