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Jovem transforma tradição familiar do crochê em fonte de renda em Roraima

  • 6 de jun.
  • 7 min de leitura

Yasmin Aragão, 20 anos, aprendeu a técnica com a mãe, que herdou o saber da avó. Hoje, a estudante de psicologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR) concilia a rotina acadêmica com a produção de peças artesanais vendidas pelas redes sociais.


Por Ana Fabricia, Joelma Liah e Kallison Tiago


Yasmin Aragão, de 20 anos, concilia a graduação em Psicologia na UFRR com a produção de peças artesanais vendidas pela Crochê Nordestino RR.                        Foto: Kallisson Ribeiro.
Yasmin Aragão, de 20 anos, concilia a graduação em Psicologia na UFRR com a produção de peças artesanais vendidas pela Crochê Nordestino RR. Foto: Kallisson Ribeiro.

Antes de virar encomenda, renda e publicação nas redes sociais, o crochê apareceu para Yasmin Aragão, 20 anos, dentro de casa. Ainda criança, ela observava a mãe fazer peças após o almoço, como uma forma de descanso. Curiosa, pedia sobras de linhas, agulhas e retalhos para tentar acompanhar os movimentos.


“Minha mãe conta que, desde criança, eu sempre pedia a agulha, uma linha ou um pedaço de pano para começar a bordar”, lembra a artesã.


Hoje, Yasmin é proprietária da Crochê Nordestino RR, em Boa Vista, empreendimento focado na produção sob encomenda de amigurumis (bonecos tridimensionais feitos em crochê), peças personalizadas, buquês temáticos, animaizinhos e bordados.


Assim como Yasmin, muitos pequenos empreendedores têm usado habilidades manuais para criar negócios próprios e divulgar o trabalho pelas redes sociais. No caso dela, o crochê saiu do ambiente familiar e passou a fazer parte também de uma rotina de produção, venda e atendimento a clientes.


O trabalho faz parte de um setor que tem crescido no estado. Segundo levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em Roraima, em 2024 o estado contabilizava 5.472 empresas ativas ligadas à economia criativa, sendo 66% dos negócios formais classificados como Microempreendedor Individual (MEI). O estudo também inclui o artesanato entre as atividades da economia criativa.


A relação de Yasmin com a produção artesanal ficou mais forte em 2023, quando a família abriu a própria loja e recebeu uma encomenda de bonecos de crochê, conhecidos como amigurumis. Como a mãe preferia trabalhar com roupas, acessórios e itens para casa, a tendência era recusar o pedido.

Foi nesse momento que Yasmin decidiu aprender para que a loja não deixasse de atender esse tipo de encomenda. “Eu fiquei pensando: por que eu não posso aprender a fazer? A gente vai recusar todas as encomendas de bonequinhos só porque ela não gosta? Não, peraí, eu vou começar a fazer também”, conta.


A primeira peça foi uma capivara de crochê, feita para uma amiga da faculdade. O trabalho levou cerca de dez horas e abriu caminho para outros pedidos. Mesmo sem curso formal, ela passou a aprender com a mãe, procurar tutoriais na internet e aceitar encomendas com prazos maiores, para conseguir testar e refazer quando fosse necessário.


Capivara de crochê, primeira peça produzida por Yasmin e marco inicial de suas encomendas.  Foto: Acervo pessoal.
Capivara de crochê, primeira peça produzida por Yasmin e marco inicial de suas encomendas.  Foto: Acervo pessoal.

“A primeira peça foi uma capivarinha. Ficou super fofa, eu amei de verdade. Depois dela, começaram a chegar mais encomendas e foi aí que eu pensei: acho que isso pode dar certo, vou botar fé nesse negócio”, relembra.



Na família de Yasmin, o crochê atravessa gerações. A avó fazia peças, a mãe aprendeu com ela e várias tias também sabem crochetar, ainda que algumas façam apenas como hobby ou para relaxar.


“Minha avó fazia super bem. Minha mãe aprendeu com ela e todas as minhas tias sabem fazer, mesmo que pouco ou alguma coisa específica”, relatou.


Para Yasmin, essa transmissão familiar mostra que o crochê sempre esteve ligado às mulheres da família. Com ela, no entanto, a prática ganhou outro sentido: deixou de ser apenas descanso ou passatempo e passou a ser também trabalho, renda e possibilidade de autonomia.


Estudante de psicologia, Yasmin encontrou no artesanato uma alternativa para conciliar a rotina da faculdade com a necessidade de ter o próprio dinheiro. Como a grade horária da graduação é integral, manter uma rotina fixa de trabalho durante o dia seria difícil. A alternativa de buscar empregos noturnos esbarrava na preocupação com a segurança pública e com o transporte na capital. 


“É muito libertador. Eu tinha muito receio do que ia fazer para ganhar dinheiro à noite. O crochê veio e solucionou muitas das minhas preocupações, porque é relaxante, é gostoso de fazer e eu posso fazer da minha casa, no meu horário”, disse.


Para ela, o empreendedorismo feminino aparece justamente nessa possibilidade de transformar uma habilidade manual em renda, conciliando a rotina de estudos e evitando depender de um trabalho fora de casa em horários que considera inseguros. O crochê, que antes era visto como uma prática familiar, passou a ocupar também um lugar de independência financeira.


A jovem também vê no artesanato uma forma de outras mulheres começarem a empreender. “Todo mundo consegue colocar para frente aquilo que tem em mente. Só dê o primeiro passo”, afirma. 


Embora a trajetória de Yasmin tenha começado dentro do ambiente familiar, ela não é um caso isolado. Em Roraima, outras mulheres também encontraram no crochê uma alternativa de renda e autonomia financeira. A artesã Sandy Stefani, 26 anos, estudante de Pedagogia na Estácio e trabalhadora CLT, começou a trabalhar com a técnica em 2020, durante a pandemia, quando engravidou e precisou ficar em casa.


  Sandy Stefani, 26 anos, encontrou no crochê uma forma de complementar a renda após a maternidade. Foto: Acervo pessoal.
  Sandy Stefani, 26 anos, encontrou no crochê uma forma de complementar a renda após a maternidade. Foto: Acervo pessoal.


O contato com o crochê, no entanto, veio ainda na infância, quando aprendeu os primeiros pontos com a avó.


Eu aprendi a fazer crochê com a minha avó. Acho que eu tinha uns 7, 8 anos. Então, quando voltei a fazer crochê, eu já entendia a base dos pontos”, conta.


Durante o puerpério e sem emprego, Sandy passou a produzir mais peças e viu no artesanato uma possibilidade de renda. Hoje, mesmo trabalhando com carteira assinada, ela afirma que o crochê continua sendo uma forma de complementar a renda.


“Infelizmente eu ainda não consigo me sustentar totalmente do crochê, sou CLT, mas é um dinheirinho que sempre quando eu preciso eu tenho. Eu vendo uma peça, faço uma encomenda, então tenho esse apoio”, afirma.


Sandy também aponta a falta de valorização como uma das principais dificuldades para quem trabalha com crochê. Segundo ela, muitos clientes ainda não consideram o tempo, a técnica e o cuidado envolvidos em cada peça.


Peças produzidas pela artesã Sandy Stefani. Foto: Acervo pessoal.
Peças produzidas pela artesã Sandy Stefani. Foto: Acervo pessoal.


“As pessoas ainda não valorizam o tempo que a gente gasta ali. Não tem como cobrar um valor justo na cidade porque as pessoas acabam não comprando. Então a gente sempre tem que baratear bastante”, relata.

Mesmo com os desafios, a artesã acredita que o crochê pode ajudar mulheres a recomeçar e conquistar mais independência.

“Eu sou mãe e, no início da fase da minha filha bebê, não tinha tempo para ir para fora. O artesanato veio como um apoio total dentro de casa e ainda me ajuda até hoje”, diz.

Vendas pelas redes sociais

A divulgação das peças é feita principalmente pelo Instagram, no perfil @croche_nordestinorr. Yasmin cuida das fotos, dos vídeos e das publicações. Além das redes sociais, também divulga os produtos em grupos de WhatsApp, principalmente da faculdade, onde conseguiu alguns dos primeiros clientes.

As feirinhas universitárias também ajudaram no crescimento do negócio. Com a internet, as encomendas passaram a chegar de outros lugares. Yasmin já recebeu pedidos para cidades como São Paulo e Fortaleza.

Amigurumis: os produtos mais procurados

Os amigurumis personalizados estão entre os produtos mais procurados pelos clientes da Crochê Nordestino RR. Foto: Kallisson Ribeiro
Os amigurumis personalizados estão entre os produtos mais procurados pelos clientes da Crochê Nordestino RR. Foto: Kallisson Ribeiro

Entre os produtos mais procurados estão os amigurumis personalizados, bonecos tridimensionais feitos em crochê a partir de fotos, personagens ou referências enviadas pelos clientes. Segundo Yasmin, os buquês com personagens também costumam ter bastante saída, especialmente os inspirados em figuras como Hello Kitty e Snoopy.


“A peça que mais sai atualmente são os bonequinhos personalizados, feitos a partir de uma foto de uma pessoa específica, ou os buquês com personagens. Hello Kitty sai muito, Snoopy sai muito também”, contou.


A rotina de produção não tem horário fixo. Yasmin faz crochê quando acorda, nos intervalos da faculdade e também à noite. A portabilidade do artesanato permite que o trabalho acompanhe a rotina acadêmica. Não é raro ver Yasmin com linhas e agulhas pelos corredores ou bancos do campus da UFRR, aproveitando intervalos entre as aulas para adiantar as encomendas.

“Na hora que eu acordo, tomo banho, tomo café e já vou fazer crochê. Se tenho tempo livre na faculdade, também faço. Toda hora que dá, eu estou fazendo”, resumiu.


Desafios para empreender


Apesar do crescimento da economia criativa em Roraima, manter um pequeno negócio ainda exige adaptação. O levantamento do Sebrae/RR aponta que, entre 2019 e 2024, houve uma variação empresarial de 93,1% no setor, mas também uma taxa de mortalidade de 41,5%, o que mostra as dificuldades enfrentadas por empreendedores criativos no estado.


No caso de Yasmin, uma das principais dificuldades é encontrar materiais específicos em Boa Vista. Algumas linhas usadas no crochê não são vendidas na cidade, e comprar pela internet pode sair caro por causa do frete e da demora na entrega.


“É muito complicado achar algumas coisas bem específicas. Tem linhas que são muito famosas, mas que a gente não encontra aqui em Boa Vista. Já perdi algumas vendas por conta do frete ser caro”, contou.


Mesmo com os obstáculos, ela diz que Roraima abriu portas para o trabalho. Natural do Ceará, Yasmin chegou a Boa Vista em 2015 e afirma que encontrou no estado oportunidades para divulgar e vender suas peças.


Além da renda, o crochê também tem um lado afetivo. Ela conta que gosta de ver cada parte da peça sendo construída, principalmente nos amigurumis, em que braços, pernas, cabeça e detalhes são feitos separadamente antes da montagem final. Quando termina uma encomenda, o apego ao resultado é quase inevitável. “Quando eu termino, dá vontade de ficar para mim. É muito gratificante”, afirmou.


Para Yasmin, a experiência mostra que o artesanato pode ser mais do que uma atividade feita em casa: pode se tornar uma alternativa de renda, autonomia e presença no mercado local. Para ela, começar é uma das partes mais importantes para quem quer empreender com artesanato. A jovem acredita que divulgar o trabalho, participar de feirinhas e usar as redes sociais pode abrir caminhos para outras mulheres.


“Todo mundo consegue colocar para frente aquilo que tem em mente. Só dê o primeiro passo, divulgue no Instagram, nos grupos de WhatsApp, participe de feirinhas. Vai dar tudo certo”, aconselhou. 













 
 
 

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