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Família transforma tradição apícola em negócio que fortalece a produção de mel em Roraima

  • 6 de jun.
  • 5 min de leitura

Há mais de 40 anos, o que começou como um hobby se transformou em um negócio familiar voltado à produção de mel e derivados em Roraima.


Por Beatriz Felix, Gabriely Lopes e Mariane Fontenele


A produção de mel envolve manejo das colmeias e beneficiamento do produto. Foto: Acervo pessoal.
A produção de mel envolve manejo das colmeias e beneficiamento do produto. Foto: Acervo pessoal.

Antes de integrar a produção de mel em Roraima, a apicultura era apenas uma atividade cultivada por Waldermar Sartor. Com o passar dos anos, o conhecimento adquirido entre colmeias, favos e safras de mel foi transformado em um negócio que atravessou gerações e ajudou a consolidar a atividade no estado.


Essa evolução foi resultado direto da transição desse saber familiar, onde cada técnica foi aprimorada a cada geração. Assim, o fortalecimento da empresa caminhou ao lado do desenvolvimento da apicultura regional. 


Uma tradição que atravessa gerações


Waldemar Sartor. Foto: Acervo pessoal.
Waldemar Sartor. Foto: Acervo pessoal.

A história da Sartor Apicultura começou com Waldemar Sartor, um dos pioneiros da apicultura em Roraima. Morador do estado desde 1973, ele conciliava a criação de abelhas com a carreira de professor de História e Literatura. O conhecimento acumulado ao longo dos anos foi transmitido à família e, em 2016, passou a ser conduzido por seu filho, Eduardo Sartor, e pela nora, Janaína Sartor.


"Quando o seu Waldemar ficou mais velho, percebemos que era um trabalho pesado. Então ele passou a responsabilidade para nós e começamos a nos dedicar mais ao negócio", relembra Janaína. 


Na época, Eduardo trabalhava como fisioterapeuta e Janaína no comércio varejista. A apicultura era apenas uma atividade complementar da família. Com o passar dos anos, o casal passou a dedicar mais tempo ao negócio, transformando o hobby em fonte de renda e dando continuidade a um legado construído por Waldemar Sartor ao longo de mais de quatro décadas.


Da tradição à inovação


Quando Janaína e Eduardo assumiram as atividades, a produção era voltada exclusivamente para a venda de mel. Com o passar dos anos, o casal percebeu que era possível ampliar as oportunidades de negócio e agregar valor ao que já produziam. 


Os primeiros passos foram dados de forma simples. O casal participava de feiras locais levando pequenas quantidades de mel para degustação. "A gente levava um stand velho, um banquinho de madeira e um pouquinho de mel para as pessoas provarem", lembra Janaína. Na época, a produção ainda era pequena e boa parte do mel era distribuída entre amigos e conhecidos pelo próprio Waldemar Sartor.


Janaína Sartor e Eduardo Otávio Sartor. Foto: Gabriely Lopes.
Janaína Sartor e Eduardo Otávio Sartor. Foto: Gabriely Lopes.

A transformação começou por meio da troca de experiências com outros apicultores de Roraima. "Primeiramente era só mel. Só mel e ponto", relembra Janaína. Segundo ela, foi durante esse processo de aprendizado que um apicultor amigo da família compartilhou com Eduardo a receita utilizada na produção de própolis. "Ele disse que estava ficando velho e queria passar o conhecimento adiante", conta.


A partir daí, novos produtos passaram a integrar o catálogo da Sartor Apicultura. Além do mel, a família passou a produzir compostos, própolis, pólen, favos, hidromel e outros derivados, diversificando a produção e ampliando as fontes de renda do empreendimento.


O crescimento também pode ser observado na estrutura produtiva. Quando assumiram a atividade, os apiários contavam com apenas 25 caixas de abelhas. Hoje, a produção se aproxima de 200 colmeias distribuídas entre os municípios de Bonfim e Cantá. 


"Quando meu pai nos entregou, a gente tinha 25 caixas. Hoje temos quase 200", destaca Eduardo. Cada colmeia abriga, em média, entre 70 e 80 mil abelhas, evidenciando a expansão alcançada pela família ao longo dos anos.


Linha de produtos do Apiário Sartor, empreendimento familiar que fortalece a produção de mel em Roraima. Foto: Gabriely Lopes
Linha de produtos do Apiário Sartor, empreendimento familiar que fortalece a produção de mel em Roraima. Foto: Gabriely Lopes

Os desafios por trás da produção


Com o sucesso, vieram também os desafios. Nos últimos anos, incêndios atingiram parte dos apiários e provocaram perdas significativas. Ainda assim, a família seguiu investindo na atividade, apostando na qualidade dos produtos e na expansão gradual da produção. Ainda assim, a família seguiu investindo na atividade, apostando na qualidade dos produtos e na expansão gradual da produção.


As queimadas representam uma das maiores ameaças para os apicultores. Além de destruir colmeias inteiras, o fogo elimina a vegetação utilizada pelas abelhas para coleta de pólen e néctar, comprometendo a produção por meses ou até anos. Especialistas alertam que incêndios afetam diretamente a sobrevivência dos enxames e reduzem a capacidade de polinização, causando impactos em todo o ecossistema. 


Outro desafio enfrentado por produtores rurais é a ação de tatus, especialmente em áreas mais isoladas. Pesquisas mostram que esses animais podem derrubar colmeias para se alimentar das larvas das abelhas. Segundo especialistas, a escassez de alimento causada pela degradação ambiental tem aumentado esse comportamento, provocando prejuízos significativos aos apicultores.


O caminho do mel até a mesa do consumidor


Por trás de cada pote de mel existe um processo cuidadoso que começa nos apiários e termina somente após várias etapas de beneficiamento.


A colheita ocorre principalmente entre setembro e março, período em que a floração é mais intensa após o fim das chuvas. Quando os favos atingem o ponto ideal de maturação, as melgueiras são retiradas e levadas para a chamada Casa do Mel.


"No local, os favos passam pelo processo de desoperculação, que consiste na retirada da fina camada de cera que protege o mel. Em seguida, são colocados em uma centrífuga para a extração do produto”, conta Eduardo.


Infográfico elaborado pelos autores com apoio de inteligência artificial, com base em informações da Sartor Apicultura.
Infográfico elaborado pelos autores com apoio de inteligência artificial, com base em informações da Sartor Apicultura.

Depois da filtragem, o mel permanece em decantação por até quatro dias, permitindo a separação de impurezas naturais antes do envase. O armazenamento é feito em recipientes de aproximadamente vinte litros, facilitando o transporte e a conservação da produção até a comercialização. 

O processo demonstra o cuidado da família em garantir um produto de qualidade, mantendo características naturais e preservando o sabor amazônico que se tornou marca registrada da Sartor Apicultura.


Formalização e empreendedorismo fortalecem a apicultura em Roraima


Para a apicultora Janaína, a formalização representa uma oportunidade de ampliar o alcance do negócio familiar e conquistar novos mercados. Com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), ela abriu o MEI e iniciou um processo de profissionalização que inclui a criação de rótulos, registro da marca e elaboração da tabela nutricional dos produtos.


Eu fui fazer o MEI em fevereiro. O Sebrae está ajudando na rotulagem e agora também na tabela nutricional para que a gente possa levar a documentação necessária e conseguir a certificação", conta.

Segundo Janaína, a obtenção do selo de inspeção é um dos próximos passos para expandir a comercialização do mel produzido pela família. A certificação permitirá que o produto seja vendido em mais estabelecimentos, como supermercados e farmácias, aumentando a visibilidade da marca e agregando valor à produção local.


A trajetória da apicultora mostra como o acesso à orientação técnica e à formalização pode transformar pequenos empreendimentos rurais em negócios mais competitivos, contribuindo para a geração de renda e o fortalecimento da economia de Roraima.


Segundo o economista Fábio Martinez, além de garantir benefícios sociais e facilitar o acesso ao crédito, a formalização fortalece o desenvolvimento econômico local. Para ele, pequenos empreendimentos rurais ajudam a gerar renda, movimentam o comércio e contribuem para que famílias permaneçam no interior, reduzindo o êxodo para os centros urbanos. 


Martinez também destaca que, mesmo com poucos funcionários, esses negócios produzem um efeito multiplicador na economia, já que a renda gerada circula entre mercados, serviços e outros setores. Ele ressalta ainda a importância da união entre produtores, por meio de associações e cooperativas, como forma de fortalecer a capacidade de negociação e impulsionar o crescimento da atividade no estado.


O legado construído por Waldemar Sartor continua sendo levado adiante pela família. Hoje, entre apiários, feiras e novos projetos de expansão, Janaína, Eduardo e os demais integrantes seguem dedicando-se à atividade que começou como um hobby. 

Como resume a apicultora, "primeiramente era só mel. Só mel e ponto". Décadas depois, o que era uma criação familiar se transformou em um empreendimento que ajuda a fortalecer a apicultura em Roraima.

 
 
 

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