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Casa Lázaro transforma dor em acolhimento para pacientes oncológicos em Roraima

  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Criada por pacientes e voluntários, a associação oferece apoio e hospedagem para pessoas em tratamento contra o câncer do interior do estado.


Por Beatriz Felix, Cleber dos Santos e Gabriely Lopes


Casa Lázaro - Foto: Gabriely Lopes
Casa Lázaro - Foto: Gabriely Lopes

O diagnóstico de câncer transforma completamente a rotina de muitos pacientes. Em Roraima, além do tratamento e dos impactos emocionais, pessoas que vivem no interior do estado enfrentam outro obstáculo: o deslocamento até Boa Vista para realizar consultas, exames e receber atendimento especializado.


O projeto existe há quatro anos e foi fundado por Rita Hartmann, Fabiana Soares, Aharon Macuxi e Lanuzza Macuxi, todos diretamente ligados à luta contra o câncer. Rita, presidente da associação, conta que a ideia nasceu a partir das dificuldades enfrentadas pelos pacientes oncológicos, especialmente aqueles vindos do interior do estado.


“Às vezes a consulta é adiada, acontece algum imprevisto e a pessoa não consegue transporte para voltar para casa. Muitos não têm recursos para ficar na cidade”, explica.

Segundo ela, a experiência pessoal dos fundadores foi essencial para a criação do projeto. Rita Hartmann e Fabiana Soares enfrentaram o câncer de mama, enquanto Aharon Macuxi também passou pelo tratamento oncológico. Já Lanuzza Macuxi acompanhava um paciente durante o processo.


A associação foi oficialmente criada em abril de 2022, com estatuto, registro em cartório e abertura de conta bancária. Desde o início, o grupo buscou estruturar o trabalho de forma transparente e organizada; sem fins lucrativos ou apoio de políticos. 

Apesar disso, o caminho até a abertura da casa não foi fácil. Rita relata que o grupo enfrentou negativas constantes ao buscar apoio e imóveis para instalar o projeto.


“Recebemos muitos ‘nãos’. Tentamos conseguir espaços, apoio e ajuda, mas encontramos muitas dificuldades”, afirma.


A presidente destaca ainda a importância da divulgação feita pelas emissoras locais, que ajudaram a mobilizar doações para mobiliar o espaço.


Presidente da associação Rita Hartmann - Foto: Gabriely Lopes
Presidente da associação Rita Hartmann - Foto: Gabriely Lopes


O nome “Casa Lázaro” é uma homenagem a um paciente oncológico conhecido pelo trabalho voluntário que realizava em apoio a pessoas vindas do interior. Segundo Rita, Seu Lázaro acolhia pacientes em sua própria residência antes mesmo da criação do projeto.


“Ele e a esposa já faziam esse trabalho social. A casa deles estava sempre cheia de pessoas que vinham para tratamento”, relembra.


Rede de apoio fortalece atendimento aos pacientes

Inauguração do espaço Casa Lázaro. Foto: Divulgação.
Inauguração do espaço Casa Lázaro. Foto: Divulgação.


Hoje, a associação conta com cerca de 50 voluntários e associados que ajudam a manter o funcionamento da Casa de Apoio. Parte dos colaboradores contribui financeiramente com doações mensais no valor de R$ 32,50, equivalente a 2% do salário mínimo, enquanto outros atuam diretamente no atendimento aos pacientes, transporte, organização dos espaços e montagem dos dormitórios.


Segundo Rita, toda a estrutura da casa foi construída por meio de doações da comunidade e os colaboradores.


“Tudo que tem aqui foi doação. Fogão, mesa, camas, utensílios, tudo chegou através da solidariedade das pessoas”, conta.


Uma das voluntárias, Marta Martins, conheceu o projeto por meio de uma reportagem na televisão e decidiu participar após ajudar uma paciente venezuelana durante consultas médicas.


“Foi um trabalho que conheci pela televisão. Eu sempre quis fazer algo assim. Depois que comecei, não quis mais sair”, relata.


Relato de sobrevivente do câncer de mama


Outra voluntária da associação é Yaneida Josefina, venezuelana e sobrevivente do câncer de mama. Ela conheceu a Casa Lázaro durante o próprio tratamento oncológico e hoje acompanha pacientes em consultas, exames e atendimentos médicos.


Yaneida Josefina, ex-paciente e atual voluntária da Casa Lázaro. Foto: Beatriz Felix
Yaneida Josefina, ex-paciente e atual voluntária da Casa Lázaro. Foto: Beatriz Felix

Segundo Yaneida, o diagnóstico trouxe medo e insegurança, principalmente por já ter perdido familiares para a doença. Ela conta que descobriu o nódulo cedo e buscou atendimento imediatamente, mas enfrentou demora no sistema público de saúde.


“Quando fizeram a mamografia e pediram a biópsia, eu já sabia qual seria o resultado. O medo maior foi a espera. Eu me preparei psicologicamente porque sabia que precisava enfrentar aquilo”, relembra.


Ela afirma que aguardou meses pela cirurgia e precisou recorrer ao Ministério Público após ultrapassar o prazo previsto para atendimento. Mesmo depois de finalmente ser chamada, viveu uma experiência traumática dentro do hospital.


“Quando cheguei no hospital, o médico me examinou e disse que não faria a cirurgia porque o tumor estava muito grande e eu precisaria fazer quimioterapia antes. Eu entrei em uma crise horrível naquele momento.

Minha família não sabia o que fazer e eu entrei em depressão”, relata.


Durante o tratamento, Yaneida passou a acompanhar pacientes venezuelanos que tinham dificuldades de comunicação durante as consultas médicas.


“Eu via muitas pessoas da Venezuela com medo de entrar na consulta porque não sabiam falar português. Como eu também fui muito maltratada, não queria que outras pessoas passassem pelo mesmo”, conta.

Foi através desse trabalho voluntário que ela conheceu Rita Hartmann e passou a integrar as ações da Casa Lázaro.


Hoje, além de acompanhar pacientes em consultas e exames, Yaneida também busca incentivar mulheres que enfrentam o câncer de mama.


“Muitas entram em depressão depois da cirurgia. Eu sempre tento passar força para elas. Nem sempre vai ficar perfeito, mas o importante é continuar viva”, afirma.


Ninguém está sozinho nessa jornada


Para a psicóloga Xayane Pianco, o acolhimento oferecido pelas casas de apoio vai além da hospedagem e influencia diretamente na recuperação emocional dos pacientes oncológicos. Segundo ela, quando o paciente se sente acolhido, passa a perceber que não está sozinho durante o tratamento.


“Isso diminui a sensação de isolamento, medo e tristeza. Na casa de apoio, o paciente encontra outras pessoas vivendo desafios parecidos e acaba criando uma rede de apoio mútua”, explica.


A psicóloga destaca que a convivência entre os pacientes ajuda no compartilhamento de experiências, medos e esperanças, fortalecendo emocionalmente quem enfrenta a doença.


“Essa conexão fortalece a mente do indivíduo, dá um novo ânimo e ajuda essa pessoa a encarar o tratamento com mais leveza e até mesmo com mais otimismo”, afirma.


Ela também reforça a importância do trabalho voluntário para o funcionamento da Casa Lázaro.


“Muitas vezes, um sorriso, uma conversa ou simplesmente estender a mão para alguém já vale muito. As casas de apoio funcionam por doações e principalmente pelo trabalho de pessoas que querem fazer parte dessa causa”, diz.


A psicóloga ainda deixou uma mensagem para pacientes que estão enfrentando o tratamento contra o câncer.


“Não é fácil passar por essa jornada. Tem dias em que a pessoa se sente mais forte e outros nem tanto, mas é importante lembrar que ninguém está sozinho. Buscar apoio na família, nos amigos ou em lugares como a Casa Lázaro faz toda a diferença”, conclui.


Xayane Pianco, psicóloga. Foto: Divulgação
Xayane Pianco, psicóloga. Foto: Divulgação

A Casa Lázaro pretende ampliar sua atuação futuramente. Com a recente visibilidade do projeto, a associação espera conseguir apoio do poder público para obter um espaço maior e atender mais pacientes oncológicos em Roraima.


Presidente da associação Rita Hartmann, voluntária Marta Martins e Yaneida Josefina, ex-paciente e atual voluntária da Casa Lázaro. Foto: Beatriz Felix
Presidente da associação Rita Hartmann, voluntária Marta Martins e Yaneida Josefina, ex-paciente e atual voluntária da Casa Lázaro. Foto: Beatriz Felix


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