Agricultores do sul de Roraima criam sistema coletivo de produção orgânica
Grupo Sul Orgânico unifica produtores de Rorainópolis, obtém certificação do Ministério da Agricultura e atende a programas federais de alimentação.
Por Beatriz Mesquita e Déborah Nascimento

Agricultores familiares do sul de Roraima criaram um sistema coletivo de produção orgânica que tornou a região referência no estado. Atualmente, a Sul Orgânico comercializa 19 tipos de alimentos, incluindo hortaliças, raízes e frutas como laranja, limão, maracujá, melancia, milho-verde, macaxeira, rúcula e pimenta-do-reino.
Saúde familiar e transição no campo
A transição para o cultivo orgânico começou com a agricultora Missinalva Andrade Sousa, proprietária do sítio 3 Irmãos, na Vicinal 13, em Rorainópolis. Produtora de hortaliças desde 2006, Missinalva mudou o método de trabalho devido à preocupação com a saúde do neto de um ano e meio, que frequentava a horta.

Em 2010, foi iniciado o processo de solicitação do projeto para o cultivo de hortaliças. A aprovação e a liberação dos recursos financeiros ocorreram em 2011, viabilizando a aquisição de sistemas de irrigação e plásticos para a cobertura de solo. Durante a fase de instalação das estruturas, o técnico responsável questionou a produtora sobre o manejo fitossanitário. Até aquele período, utilizava-se o defensivo agrícola Decis, adquirido na região Sul do estado, sob a premissa de que o insumo químico gerava baixo impacto ambiental.
A suspensão do uso de agrotóxicos na propriedade ocorreu após a leitura técnica das instruções da bula do produto. As diretrizes especificam a necessidade de isolamento da horta por três dias após a aplicação, além de um período de carência de 30 a 40 dias antes do consumo dos alimentos. Diante da incompatibilidade entre os prazos exigidos para a segurança alimentar da família e a rotina de manejo e consumo no local, a produtora optou pela interrupção definitiva do insumo químico.
“Não tinha como passar mais de três dias sem pisar na horta e então tomamos a decisão de não fazer mais uso. Foi amor e cuidado. Eu vi que não fazia sentido continuar usando aquilo, ainda mais com meu neto andando na horta comigo”, relembra a agricultora.
Organização do grupo e apoio institucional
Apesar de extinguir os defensivos agrícolas, a propriedade ainda utilizava adubos químicos. Ao constatar que o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do Governo Federal, garantia um bônus financeiro de 30% no valor pago aos produtores orgânicos, Missinalva buscou a regularização da atividade. Ela uniu-se à agricultora Meire para planejar a transição formal.
Durante uma visita de técnicos do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) ao município, Missinalva questionou as exigências para a venda legal de orgânicos e recebeu a instrução de que precisaria formar um grupo de produtores. Inicialmente, a agricultora enfrentou dificuldades devido à desconfiança local em relação à viabilidade do mercado orgânico.
A maioria das pessoas não acredita na produção orgânica. “Como que eu vou montar?”, pensou Missinalva na época.
Para iniciar o processo e obter o acompanhamento do MAPA, Missinalva contou com o apoio da filha, Cleonice Sousa Targino e do agricultor Francisco Filipe Sousa Targino, que já trabalhavam na horta e possuíam a documentação necessária (como a emissão de guias fiscais). Em seguida, ela convidou feirantes da feira Amazondalva, reunindo um grupo inicial de 30 pessoas.

A estruturação do projeto contou com o apoio do Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural (IATERR), da Universidade Estadual de Roraima (UERR) e do MAPA. Após um ano de atividade conjunta dessas instituições, o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) integrou o projeto.
Fundação da associação e a marca “Sul Orgânico”
Em 2016, a participação de 25 agricultores em uma palestra sobre agroecologia consolidou a fundação do Grupo Sul Orgânico, nomeado em função da localização geográfica dos produtores. No final de 2017, após vistorias técnicas, o MAPA emitiu as primeiras sete certificações para venda regularizada.
Até 2019, o grupo funcionava de maneira informal. Diante da necessidade de acessar novos mercados, os produtores formalizaram a iniciativa com a criação da Associação de Agricultores Familiares de Produção Orgânica, adotando “Sul Orgânico” como nome fantasia. O atual presidente da entidade, Gilvan Paiva, assumiu a gestão com a estrutura jurídica regularizada. A associação, que chegou a registrar uma queda para dez membros ativos em determinado período, expandiu o quadro para os atuais 30 integrantes.
Modelo OCS e fiscalização participativa
O grupo opera sob o modelo de Organização de Controle Social (OCS), um mecanismo fiscalizador reconhecido pelo governo federal. O sistema funciona de forma colaborativa por meio de mutirões itinerantes entre as propriedades.
Os encontros, que no início ocorriam a cada 15 dias, atualmente são mensais. A cada mês, os associados reúnem-se na propriedade de um membro diferente para realizar trabalhos de campo coletivos e inspecionar os cultivos. Essa fiscalização interna mútua assegura que nenhum produtor utilize insumos proibidos, protegendo a certificação coletiva, uma vez que irregularidades em uma propriedade invalidam o registro de todo o grupo.
“Por exemplo, se hoje é na minha propriedade, todo mundo vem, ajuda no trabalho e observa se estamos produzindo dentro das regras da agricultura orgânica. No mês seguinte é na propriedade de outro agricultor”, detalha Gilvan Paiva.
Hoje em dia, o grupo Sul Orgânico, sediado no município de Rorainópolis, reúne hoje 30 produtores, dos quais 20 possuem certificação via Organização de Controle Social (OCS) pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A associação é a única instituição de Roraima habilitada a fornecer alimentos especificamente orgânicos de forma institucional para programas do Governo Federal.
Consultoria técnica e mercado institucional
O suporte do SEBRAE baseou-se em diagnósticos individuais nas propriedades rurais. Segundo o analista técnico Emerson Melo, as soluções foram personalizadas para atender demandas específicas de lavoura, gestão administrativa, planejamento e controle de pragas de cada agricultor.
“Cada produtor tinha uma necessidade diferente. Alguns precisavam de orientação técnica na lavoura, outros em gestão, planejamento ou controle de pragas. O trabalho era personalizado. Era um projeto completo, técnico, administrativo e, também, de mercado”, afirma o analista técnico Emerson Melo.
O acompanhamento técnico incluiu visitas mensais de agrônomos, capacitações, oficinas, cursos de gestão rural e viagens técnicas para feiras e polos agrícolas em outras regiões do país, visando a absorção de novas práticas de campo.

A associação fornece os alimentos de forma direta para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), por meio do PAA e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
A entidade executa sua terceira proposta com a Conab, gerenciando contratos que variam entre R$ 100 mil e R$ 150 mil. Conforme a avaliação de Gilvan Paiva, embora a produção orgânica exija maior nível de manejo e controle, o setor ainda carece de investimentos e de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar ecológica.
Impacto socioambiental e qualidade de vida
Para Missinalva de Souza, idealizadora da iniciativa, o impacto da transição superou as metas comerciais.
“Vale a pena você trabalhar na área do orgânico porque, primeiramente, você está cuidando da sua saúde, segundo da terra onde você trabalha, do local onde você convive. Posso levar pouca coisa para a feira, mas para mim no final é muito. Tudo, tudo, tudo melhorou. E também recebemos bastantes elogios dos nossos clientes”, conclui a agricultora.
O projeto, iniciado para proteger a saúde familiar em uma pequena horta, consolidou-se como uma rede cooperativa que conecta diferentes vicinais e municípios, gerando renda e fixando-se como principal referência em agricultura familiar ecológica em Roraima.





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